A palavra universo deixou de fazer sentido. Foi substituída por multiverso, cuja complexidade é infinitamente superior. Hoje crê-se existirem universos paralelos, universos complementares, universos dentro de universos. Passa-se o mesmo com as cidades. Existem cidades dentro das cidades. Tudo depende do ponto de vista. Tudo é, em suma, relativo.
No processo de observação da realidade a fotografia sempre assumiu, e continua a assumir, um papel decisivo. As imagens não só mudam o mundo, como também o revelam perante o nosso olhar incrédulo.
A Inestética Companhia Teatral sempre manifestou um imenso fascínio pelo fantástico mundo das imagens. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de convidar uma fotógrafa estrangeira a captar a vida da nossa cidade...
Vera Cammaer vive em Leuven (Bélgica) e decidiu aceitar o desafio...
Alexandre Lyra Leite Junho 1999
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Café Central, 28 Junho 1999, 23:17
"No meu trabalho procuro estabelecer relações entre as coisas. Numa exposição deve passar-se o mesmo. As fotografias devem relacionar-se entre si. O espaço onde os trabalhos serão expostos é também um factor de inspiração durante o processo criativo."
"Tentei ir além de uma função puramente documental. Trata-se de procurar adicionar uma nova dimensão à própria realidade..."
"Sente-se que estamos no Sul da Europa. Pela abertura de espírito, pelo convívio, pela alegria de viver. Portugal é um país de conversadores... Nos países do norte as pessoas são mais fechadas."
"Fiquei impressionada com a luz (...) A presença do rio confere à cidade uma atmosfera que me agrada (...) O cemitério é um local interessante. A inclinação do solo, num ângulo muito acentuado, a enorme concentração de campas e a cor branca da pedra. Lá de cima pode ver-se a cidade e o rio. Como se fosse um observatório..."
"É um enorme desafio fotografar uma cidade que me é estranha, num país cuja cultura desconheço, em tão pouco tempo. Actualmente estou a trabalhar num projecto sobre Bruxelas onde raramente surge o elemento humano. Aqui tentei fazer o contrário. Observei essencialmente as pessoas..."
Conversa com Vera Cammaer (excerto)
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